Amigo Coronel Almeida
Monte Video, 25 de Fevereiro de 1837.
Estou de posse de seu officio de 12 deste, dirigido ao Capitão
Martiniano, do qual foi portador o Sr. Alferes Bernardino Rodrigues
Barcellos Filho.
Pelo mesmo Capitão lhe escrevi e mandei-lhe dizer a quantia que
ficava em meu poder, sendo huma letra de mil pesos e quatrocentos e cinquenta
patacoens; a letra fiz immediatamente entrega della ao dito Alferes, do que
cobrei recibo porem não fiz o mesmo ao mais dinheiro por ter impregado já
parte delle em satisfazer compromiços que contrahi como já lhe comuniquei,
e o mesmo tenho feito ao Sr. Presidente e acredite Coronel que se não fosse o
Ruedaz, teria eu passado mil miserias, porque sahi de Pelotas com 4 patacoens
na algibeira, fiado na venda dos couros e tive de pagar a huns vaqueanos e ao
soldado que me acompanhou, assim como roupa para me apresentar às
authoridades, a passage de hida e volta para Buenos Ayres, enfim mil cousas
que me herão indispençaveis, assim como ter de pagar a certos agentes, como
tem sido testemunha o Lima; e pode o Coronel ficar na certeza de que eu a
mais tempo deveria ter me retirado da qui, se não visse que a minha estada se
torna indispensavel, ou a de outro qualquer que me substitua para certos
objectos, que se bem hoje não aparecem estes serviços, hum dia a Patria os
reconhecerá; e para mais me justificar lhe remeto as duas cartas juntas que
são de Jacintho Roque de Lima, que se acha em Buenos Ayres, e com o
qual tenho intabulado a mais activa correspondencia a bem da cauza (cujas
me devolverá) e por ellas se convencerá que nada se faz sem dinheiro. Acreçe
além disso que eu persuadido das vendas dos couros, mandei dar em Porto
Alegre algum dinheiro à Família de Mattos que Vosmecê mui bem conhece
suas precisoens; por cartas que da mesma tive e que existem em poder de
Mattos verá que ella recebeo aquella diminuta soma, e que eu terei de pagar
a quem fez-me tal [1v] favor, logo que se me apresente o recibo, todas estas
dispezas me parecem merecer disculpa, e se não se julgar justas, he de meu
dever encaralas como minhas, e então procurarei ver meios de salvar o meu
crédito. Quando o General para ahi voltar, elle então dirá a V. o nosso estado
nesta praça e se he possivel aqui viver sem dinheiro quando todos os dias
estão a chegar os nossos amigos fugidos da Corte e pedindo o necessario
para se encorporar ao Exercito como sejam arreios, ponchos, armas, etc.
etc., não trazendo do Rio de Janeiro nenhuma moeda por que não ha ali
quem he supra, de tudo quanto levo dito estará informado pelo Silvano e
pelos filhos de Bento.
Não lhe dou notícias porque o General lhe escreve circunstanciadamente
e só tenho a pedir-lhe dê minhas lembranças ao Mattos e aos mais
amigos que ainda ahi estiverem, e lhe rogo com as mãos erguidas para os
Céos e em nome de tudo quanto lhe he mais caro, tendo em vista os meus
muitos padecimentos dos nossos amigos que se achão presos no Rio de
Janeiro, que faça todo o possivel para que A. P. da F., esse traidor, patricida
e venal, pague com a vida os males que vai cauzar a nossa Pátria com a
escapula dada a Silva, que o Deos da America bem dirá a mão que vingar a
Patria e a Liberdade vendida por esse infame; este pedido se o não puder
cumprir, ao menos lhe rogo faça presente a quem houver manda-lo efetuar,
na certeza de que o meu coração não sente a menor comoção quando tal
pronuncio e peço seja esta a minha sorte, se hum dia me tornar indigno do
nome de Americano Livre.
Seu amigo e muito respeitador
[a] José Carlos Pinto
Volta. [2]
Esquecia-me dizer-lhe que ja se passarão duas cartas de corso e que com a
declaração de guerra que dizem o Brasil pretende fazer a este Estado, muitos
mais hão requisitado. Mande com a maior brevidade os papeis que Pinheiro
tem em seu poder que dizem respeito a esta objecto. Não se esqueça devolverme
as duas cartas que remeto. [a] Pinto.