estimular

Reconhecendo o Capitam Mandante desta praça, João da Motta, que na sua defensa se houve com excessivo Zelo, fidelidade, constancia, e trabalho, a caridade com que nos obrava mos, e o amor que mostrava mos de fieys vassallos de Vossa Magestade nos pedio por carta que a Vossa Magestade aprezentamos alguns Padres para irem à Parahiba, e Tamandarè à solicitar o socorro para a defensa da dita praça, e por entendermos que nisso faziamos serviço a Deos, e a Vossa Magestade se lhe concederaõ, sem reparar mos nos perigos a que se expunhaõ, o que estimulou os animos dos sitiadores da praça (REC, 1711, 07, 076-077).

Formas Documentadas

estimulou (1).

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1

Registros em:

Recife – PE

Transcrição


<20 novembro>
<1711>
Senhor,
Agradecidos ao Real zelo, e summa caridade com que Vossa Magestade he servi-
do amparar, e favorecer com tanta magnificencia esta sua Congregaçaõ que tem tomado
debaixo de sua Real proteçaõ ordenando se nós desses da sua Real fazenda sinco
mil cruzados para ajuda da obra da nossa Igreja de que tanto necessitamos, pella pequen-
hez da que temos a respeyto do numeroso povo que para os nossos exercicios a ella concorre,
e que se continuasse a dita obra que á Camara da Cidade de Olinda por oppoziçaõ, que
tem ao Recife tinha mandado suspender sem que nós valessem contra a sua determinaçaõ
as cartas, que de Vossa Magestade lhes aprezentamos, assim a do Padroado, como a em que foy
servido ordenar semedisse a dita obra para effeyto de secontinuar com ajuda da esmolla
que já a Vossa Magestade aviamos pedido, por hum, e outro beneficio rendemos humildemente
a Vossa Magestade as graças, cuja merce e esmola redundará a Deos dequem he totalmente aobra
e aVossa Magestade grande gloria e naõ pequena utilidade as almas. Ecomo o demonio se resente
tanto desta, naõ cessou para à devertir querernos maquinar huã grande ruina.
Depoys do Levante que houve contra o Governador Sebastiam de Castro, e Caldas, que
ja a Vossa Magestade foy notorio nos arguiraõ falsamente os motores, e parciays do dito Levante, que a esta
nossa Congregaçaõ vinhaõ alguas pessoas desta Villa do Recife a fazerem papeys contra
elles, sem outro motivo mays para assim o crerem e publicarem, que ter-se o dito Governador mostrado incli-
nado a esta Casa, como Vossa Magestade foy servido recomendar-lhe; e naõ bastaraõ os repetidos desenga-
nos, que nestà materia damos ao Reverendo Bispo, nem o naõ se acharem athe a presente indicios
alguns dos ditos papeys por mays deligencias que para isso mandou fazer, para assentir à nossa
verdade; e quiça, que o naõ assentir a esta fosse o motivo de mays se radicar nos coraçoẽs dos sobre-
ditos motores, e parcyais este testemunho, para nos intentarem maquinar / como publicamente deziaõ nes-
te novo levante / a ultima ruina, o que fariaõ se Deos como author da verdade nos naõ defendesse.
Levantousse a 18 de Junho deste prezente anno a Infantaria desta praça do
Recife, a que se uniraõ todos os moradores della, para se porem em defensa de algũas pessoas de fora
que aggregando outras de sua facçaõ se dezia tinhaõ intentado invadir adita praça rouballa ma-
tarem as familias principaes della, e fazerem-se senhores das Fortalezas e praça de Vossa Magestade
Sitiaram-na, / cujo sitio durou athe a chegada do novo Governador./ roubando logo muytas casas
do Lugar das Salinas, proximo a dita praça, que pertenciaõ aos moradores desta, e a muytos es-
cravos que apanhavaõ, como tambem tyrannamente obraraõ na Villa de Goyana, e freguezia
do Cabo assolando tudo o que era dos moradores do Recife, e dos que os seguiaõ sem perdoarẽ
animguem. Passados alguns dias do levante apanharaõ huã carta do Governador da
Parahiba para hum Padre desta casa, em que lhe fallava na prezente materia ja succedida, na
qual se naõ continha couza, de que o pudessem arguir. E como o dito Governador sempre abominou
pello intender assim, o cerco que haviaõ posto a praça de Vossa Magestade impedindolhe o susten
to.
osustento, bastou acharem esta Carta para acrescentarem o que nella se naõ continha, e para dizerem
ajudados da mà intençaõ que ja dantes nos tinhaõ pello testemunho ja referido que se en-
trassem na praça nòs haviaõ pòr o fogo impondonos tambem falsamente, athe o chegarem
a persuadir ao Reverendo Bispo que nòs foramos a causa do dito levante (tam cruel como isto
foy a guerra que nòs fez o demonio) do qual Levante, como Deos he testemunha, naõ fomos
sabedores, poys nos naõ pertencia o sabello, senaõ quando vimos; e basta para abono desta ver-
dade o acharse entaõ a nossa Casa desprevenida do sustento, de que certamente nos proveríamos, Se
dantes o souberamos; mas esse pouco com que nos achamos, entendemos, que evidentemente acrescentou
Deos, poys com trinta alqueyres de farinha, que unicamente tinhamos se sustentou por sincoenta
dias esta Communidade que constava de vinte e sete Congregados, e vinte e oyto escravos, dandosse
a [portaria?] esmola em todos estes dias a mays de oytenta pobres; que a ella chegavaõ morrendo
a fome, socorrendose tambem a muytas pessoas graves homens, e mulheres que em pessoa vinhaõ
pedir huã esmola, o que nunca fizeraõ em sua vida.
Vendo nos por huã parte este povo perecendo sem sustento algum, comendo
somente huns mariscos que chamaõ pedras pella sua dureza, do que nunca se fez caso, e ainda estes
naõ podiaõ colher, porque os sitiadores furtavaõ, e matavaõ tyrannamente aos escravos, que os hiaõ ma-
riscar, e por outra parte o evidente perigo de perderem todos as vidas, honras, e fazendas, e senhore-
arem-se os sitiadores da praça e Fortalezas de VossaMagestade com Zelo de fieys vassallos, &
com caridade, e fê em Deos animavamos a estes miseraveis, o que tambem fizeraõ os mays re-
ligiosos, principalmente os da Reforma do Carmo para que naõ desmayassem, e defendessem as suas
vidas pello infallivel perigo em que estavaõ, poys ja neste tempo publicavaõ os sitiadores,
que se chegassem a invadir a praça ninguem havia escapar com vida, e que tivessem confiança na
misericordia Divina, que supposto tinha permittido pellas nossas culpas à affliçaõ, e angustias
em que se viaõ, naõ lhes havia faltar com o ultimo remedio; como naõ faltou, pellas preces pub-
licas que ao mesmo Deos se fizeraõ ajudadas com os piedosos clamores dos inocentes, que cortavaõ, e
Lastimavaõ o coraçaõ, queyxando-se alguns de os desamparar, quem na terra tinha obrigacaõ de os
defender, eamparar; e assim começou a concorrer por mar o sustento vindo da Parahiba Rio de São
Francisco, Alagoas, Portocalvo, Tamandarè, e Bahia, cujos povos estavaõ pella partes, e a favor des-
ta praça, solicitando a conduçaõ de algũas destas partes o Governador dos Indios Dom Sebastiaõ Pinheyro
Camaraõ, e o Capitam Mayor de Lna Cristovaõ Paes Barreto, que no socorro desta praça com
grande Zelo se mostraraõ os mays empenhados, chegando este a empenhar a sua prata para
o dito socorro, e aquelle a conduzir às suas cestas para os barcos as Canas de asucar, batatas, e outras
meudezas para se repartirem pellos mininos do Recife, acçaõ verdadeyramente catholica, e de exces-
siva caridade.
Reconhecendo o Capitam Mandante desta praça, João da Motta, que
que na sua defensa se houve com excessivo Zelo, fidelidade, constancia, e trabalho, a caridade
com que nos obravamos, e o amor que mostravamos de fieys vassallos de Vossa Magestade nos pedio por
carta que a Vossa Magestade aprezentamos alguns Padres para irem à Parahiba, e Tamandarè à soli-
citar o socorro para a defensa da dita praça, e por entendermos que nisso faziamos serviço a Deos,
e aVossa Magestade selhe concederaõ, sem repararmos nos perigos a que se expunhaõ, o que estimu-
lou os animos dos sitiadores da praça, edos que os governavão por verem, que com estas deligencias
selhes frustrava, e difficultava mays o tyrannico intento que tinhaõ de invadir a dita praça a acen-
dendo-se mays nos seos coraçoẽs contra nòs hum infernal odio, como bem mostraraõ no que obrarão
com hum Congregado nosso, que vinha da nossa missaõ do Arorobà, ao qual Leonardo Bezerra Ca-
valcanti, eo Ajudante Bernardo de Alamaõ, que estavaõ pondo cerco a Fortaleza de Taman-
darè, que tambem estava pella praça, despiraõ a roupeta atando lhe a correa com que se cingia
ao pescoço, prendendo-ò a hum paó quasi afogado, peandolhe os pes, puxando lhe pellas bar-
bas, dandolhe bofetadas, e buscando ortigas para o açoutarem, eobrando outras mays acçoẽs, que
nem barbaros fazem.
Todos estes, e outros oprobrios, Senhor, nos parecem suaves, porque tudo
soportamos por intender-mos, que no que obravamos faziamos algum serviço a Deos e a Vossa Magestade
e beneficio as vidas deste povo sitiado, de que naõ pertendemos outro premio nesta vida, mays
do que reconhecer Vossa Magestade a fidelidade, Zelo, e amor com que o desejamos servir pedindo hu-
mildemente a Vossa Magestade o faça assim entender pello caminho que lhe parecer aquelles, que nos são
oppostos, para que conhecendo-o assim possamos continuar nas missoens de ambulatorios sem semelhã-
te perigo, e com aproveytamento das almas, poys da boa ou mà expectaçaõ do auditorio, depende
o fazer-se ou naõ fructo nas almas. Deos Nosso Senhor prospere e augmente avida, e saude a Vossa
Magestade para beneficio do seu Reyno, Consolação dos Seos vassallos. Congregaçaõ do Oratorio
da Villa do Recife 20 de Novembro de 1711.
De Vossa Magestade
Mais humilde Vassalo
Jozeph da Costa
Preposito da Congregasam

Arquivo da Transcrição

Crédito

Créditos: Arquivo Público do Estado de Pernambuco

Manuscrito: Carta Pública

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